actually, no context on the horizon. i wish this crucial archival footage (appreciation to everyone who worked on its restoration) had fallen into the hands of a more conscientious & competent director in this matter, and not loznitsa, who has discredited himself
“O passado é Reescrito tão rapidamente que você nem sabe mais o que vai acontecer ontem”Piada soviéticaEu vi o filme numa sessão especial no Utopia, Bordeaux. Sergei Losnitza apresentou BABI YAR CONTEXT numa sessão lotada na 3a semana da invasão da Ucrânia pela Rússia de Vlad Putin em 2022. O efeito geral em mim de ver o filme foi forte, a sensação de que talvez o mundo ande em círculos, etc, que o mundo se repete como amnésia ou uma tendência de ficar preso na sua própria doença. E etc… É também forte como filme de Cinema na forma como imagens guardadas revelam os segredos das coisas como elas são, e de como tanta coisa pode ser explicada pela História. Muita coisa é evidente, outras exigem o preenchimento de lacunas. Essa montagem de material de arquivo reconstrói as violências de uma invasão da Ucrânia em junho de 1941 pelos nazistas. Sergei, ao apresentar o filme, disse que “há 80 anos, a Ucrânia enfrentou um inimigo que veio do Oeste, e hoje o inimigo ataca do Leste”. Ele espera que a Ucrânia saia vencedora e que ele possa registrar ele mesmo - em Kyiv - os julgamentos dos que hoje cometem crimes contra a humanidade na mesma Ucrânia. Imagens de arquivo de julgamentos na União Soviética fazem parte já da sua obra, THE TRIAL (O Processo) e nesse BABI YAR CONTEXT, e são impressionantes não só pelo conteúdo de informação, mas também pela forma como foram filmadas. Bom saber que isso estava a serviço da máquina de propaganda na época, os newsreels que eram exibidos nos cinemas como difusão de informações e versões do mundo. Sergei, desde BLOCKADE (2005) trabalha com materiais guardados que foram usados oficialmente e também guardados sem que nunca tivessem sido vistos oficialmente. Um soldado nazista da SS, que narra tranquilamente como foi um dos carrascos da ravina de Babi Yar, munido de uma metralhadora emprestada pelo seu oficial chefe. “Quantos matou você mesmo?”, perguntam no julgamento. “120”. “120 em um dia?” - ele responde, “não, 120 total”. Homens mulheres e crianças. O filme apresenta a invasão da Ucrânia Soviética em imagens de arquivos alemães, russos e ucranianos. O povo ucraniano recebendo os nazistas de braços abertos depois de anos nas mãos de Stálin, cujas imagens eram rasgadas e substituídas por imagens de Hitler. Um povo que não sabia o que estava prestes a acontecer… Kyiv antes da invasão nazista, durante os atentados da polícia de Stálin no centro de Kyiv e que deram a desculpa para que os nazistas começassem o massacre dos judeus da cidade, executado na ravina de Babi Yar, em Kyiv. E aí me bateu o meu próprio arquivo de imagens dessa guerra pouco vista do lado de cá, administrado pela força industrial cultural e política dos EUA, e me lembrei muito das imagens reconstruídas por Elem Klimov em IDI I SMOTRI (1985) - VÁ E VEJA. Klimov realmente sabia o que estava filmando e reconstruindo, as imagens dos nazistas queimando pequenas comunidades são bem impressionantes como registro e como espelho para o que Klimov filmou 40 anos depois a cores e com steadicam. Losnitza faz um panorama rico em contexto mostrando Lyiv (extremo oeste, junto da Polônia), onde hoje funciona o portão de saída de refugiados ucranianos em direção à União Europeia nessa guerra maquinada por Putin. O ato de juntar os judeus de Kyiv, ordenados a marcar presença no centro da cidade com pertences e roupa de frio, depois levados para Babi Yar onde 33711 pessoas foram fuziladas em setembro de 1941. Durante três dias e noites. À certa altura, o filme pára e estampa na tela durante uns 5 minutos parte importante do ensaio escrito por Vasily Grossman - A UCRÂNIA SEM JUDEUS - de 1943 sobre a extinção de um povo num país inteiro. Procure esse texto (achei em inglês), é muito impressionante como escrita e registro histórico de ideias. Já com os nazistas em retirada em 1943, o povo ucraniano rasga as imagens de Hitler e põe de volta as imagens de Stálin. Uma sequência épica de participação popular em 1946 nos mostra os enforcamentos dos nazistas com a ajuda de caminhões, um carnaval de morte e ajustes de contas. O filme me fez pensar em algo que tem vindo à mente sobre a obra de Losnitza nessa nova guerra de ódio em 2022. Semana passada, recebi de fontes diferentes da esquerda Brasil (eu sou dessa esquerda Brasil) links (ou o mesmo link) de filmes de Oliver Stone (americano estadunidense) e de outro documentário Netflix realizado por um francês. Mas não tenho recebido links dos filmes de Sergei Losnitza, que vem filmando e analisando arquivos da Europa do Leste, da Rússia, da URSS e Ucrânia já há 20 anos. Sergei é Ucraniano. O que dizer? Ele tem lugar de fala. Talvez porque os filmes de Losnitza se recusem a assumir posturas fáceis de interpretação política, e exigem o preenchimento de lacunas que podem ser trazidas por um conhecimento da própria Historia. E a História não oferece obrigatoriamente um lado fácil e aberto à lógica de uma torcida. DCP/Utopia Bordeaux