O cinema reflete muito a respeito da condição do imigrante, com histórias sobre latino-americanos nos Estados Unidos e africanos na Europa são comuns. Contudo, esta talvez seja a primeira vez em que encontro um filme sobre a experiência dos imigrantes chineses dentro do território brasileiro, mais especificamente no Recife, com a direção de uma cineasta alemã. E é uma experiência amarga enxergar, no brasileiro, distante do comportamento acolhedor que acreditamos demonstrar com o turista ou imigrante, um preconceito xenofóbico.Mas Dormir de Olhos Abertos é maior do que isso. A partir de uma estética rija, a diretora Nele Wohlatz 'prende' os imigrantes dentro de uma experiência claustrofóbica, em que só existem para um trabalho informal e para lamentar a sua sorte. É um contraste com a liberdade de Kai, que transita por esses não lugares à procura de Fu Ang, apesar de mal ser capaz de encontrar-se. Uma mulher "sem fuso horário", que é uma descrição apropriada para defini-la, Kai parece estar atrasada e isto espelha o azar de Fu Ang, que vende guarda-chuvas na temporada de sol (no Nordeste, só a temporada de sol e de chuva), ou boias em uma praia em que é proibido o banho.Os encontros e desencontros têm uma poesia melancólica, mas não amarga. A vida é difícil, sobretudo para quem abdicou da nação que chamavam de lar, e para uma mulher em trânsito igual a Kai, o ato de se deslocar é a vida. Iniciamos e terminamos sabendo só o mínimo necessário sobre ela, embora pareça o suficiente: o poder de síntese do roteiro é admirável, em evidenciar o que de fato importa: o que há dentro de cada personagem, sentir-se, aceitar-se alienígena em uma terra não necessariamente hostil, mas tampouco um lar. É um filme pequenino, até em termos de decupagem, mas é de uma abrangência imensa, imensa.











